the muppets. (2015)


Desde os anos 70 houveram duas encarnações televisivas dos Muppets, o Muppet Show original e Muppets Tonight, que atualizava alguns elementos.
E em todas as encarnações Muppets, uma coisa era certa: eles eram personagens pra família. Eles tinham suas piadas que só os adultos entendiam, mas não era o foco deles e nem sempre tratavam de temas maduros.

Isso mudou quando a ABC deu sinal verde para a série "the muppets.", que mostrava os personagens em seus dia-a-dias comuns, e causou recepções mistas, por ser algo novo e com potencial, mas ao mesmo tempo desagradando aqueles que esperavam algo mais tradicional.
Mas afinal, qual o veredito?





O plot todo da série envolve os bastidores do talk show de Miss Piggy, chamado de Late Night with Miss Piggy. As tramas envolvem coisas como convidar celebridades pra serem entrevistadas, ou alguma ideia a ser usada em um episódio do programa, e tudo isso mesclando-se às tramas pessoais.
O primeiro episódio trata justamente do status quo do Late Show e do relacionamento entre Kermit e Piggy, e introduz a nova personagem, Denise. Mais tarde entro em detalhes.

O foco da série é realmente o lado pessoal dos personagens. Como eles agem, o que eles fazem, como trabalham dentro do estúdio, e tem elementos bastante identificáveis, como Bobo vendendo biscoitos pros colegas; ou Gonzo, Rizzo e Pepe dividindo um apartamento; ou Robin indo visitar o trabalho do tio. Esses são elementos do mundo real que são interessantes de vermos e que são interessantemente explorados, mas é necessário analisar o histórico dos bastidores.



Nos primeiros episódios os roteiristas/produtores ainda estavam naquela fase de engrenação (essa palavra existe? enfim.). Tínhamos piadas que não eram exatamente engraçadas, mas que faziam sentido. Como por exemplo, antes do brainstorming do dia, acontece um diálogo entre Pepe e Scooter:

Scooter: Então, Pepe, como foi o casamento da sua prima?
Pepe: Ah, o vestido dela estava "eh". Mas cê sabe, não tem muitas opções quando se está grávida de 4 mil bebês.

Mesmo que tu não entenda de biologia (como eu), sabe que alguns animais marinhos realmente tem quantidades semelhantes de reprodução. Aliado ao fato de que ela casou grávida (que é algo comum em nosso mundo), mostra a junção ideal entre o humor típico para adultos mas que pode passar desapercebido entre algumas crianças (como eles costumavam fazer, mas em outro nível); e o fato de que eles são animais que agem como humanos, o conceito que permeia o universo Muppet.



Mas então temos piadas como essa:

Yolanda: Ei! Vamos chamar Josh Groban semana que vem! Ele é solteiro, tem uma voz incrível, e me deixa louca.
Pepe: Ele me deixa louco também!
*silêncio constrangedor enquanto todo mundo olha pra Pepe*
Pepe: O quê? Ele é um cara bonito, e gênero é fluido.

A piada não funciona bem porque não é uma piada, mas todo o timming da cena nos dá a entender que é uma piada. Você assiste esperando dar uma risada, nem que seja de canto de boca, mas aí eles vem com um papo e tons sérios.
Eu juro que quando eu vi, eu pausei e fui pesquisar sobre a biologia dos camarões (King Prawn), no caso), porque eu pensei que em um certo ponto da vida eles mudavam de sexo ou algo assim.
Nada. Ficou um momento forçado e desperdício de timming pra piada.



Com o tempo eles foram aprimorando o estilo e temática das piadas e situações cômicas, mas pra isso foi necessário um período em que pouca coisa ou nada acontecia. Felizmente, foram os primeiros 4-5 episódios, aproximadamente. Mas que é muito se considerarmos que a série tem 16 episódios, e que os episódios iniciais contam muito no quesito "audiência".

Lá pros episódios 6-7, eles finalmente acertaram a mão e começaram a desenvolver melhor os personagens e o plot principal: o relacionamento de Kermit e Piggy. Curiosamente, foi mais ou menos o período em que houve a troca de showrunner.
A cada episódio foi-se limando mais os cortes pra entrevistas diretas, sem abandonar os outros traços de mockumentário, e focando-se mais em conduzir a trama da vez.


Entre Dezembro e Fevereiro a série passou por um hiato mais do que necessário, tanto pra dar uma folga pro Late Night quanto pra iniciarmos a reta final da série. É provavelmente minha parte favorita, pois desenvolve o núcleo do plot principal, Kermit, Piggy, Denise, e de quebra Uncle Deadly, mas sem esquecer dos outros personagens. E ainda introduzindo um vilão muito bem construído, Pizza.

Mas se fala "Pache".

...é sério, assistam que é melhor do que eu explicar.


A série terminou numa nota belíssima entre Kermit e Piggy (não é spoiler uma vez que todos nós sabemos que eles nunca vão se separar em definitivo), e aparentemente a série poderia iniciar uma nova fase, em que o relacionamento entre os dois iria ajudar o Late Night, e eles teriam que se ajudar em alguns stresses e mal-entendidos que a vida de celebridade provoca.
Até que a ABC cancelou, junto com outras séries como Agent Carter e Castle.

Não que não fosse previsível, mas eu pessoalmente esperava que eles considerassem melhorias na série. Mas não, aparentemente a doce e singela nota final do último episódio foi o suficiente pra eles. O motivo principal foi a queda de audiência, e a seguir eu listo alguns motivos que poderiam ter ocasionado essa queda de audiência:



-O tom e assuntos adultos

De longe, o que mais causou discórdia foi o tom que não é family-friendly que sempre foi a marca dos Muppets. Como eu disse, eles sempre fizeram menções a alguns temas, mas sempre se manteram num nível e modo que ainda era family-friendly, dependendo da ocasião. Em talk-shows ninguém sabe bem o que pode acontecer, ainda mais ao vivo.
Entretanto, como eu já mencionei, algumas piadas estavam muito forçadas e pareciam fazer parte de uma "cota" de piadas adultas que eles deveriam botar na série, pra mostrar (ou testar) o humor.
Ao meu ver, isso não é um problema. O propósito da série era mostrar os Muppets como gente como a gente, pagando contas, saindo com os amigos (tem um episódio inteiro sobre isso, aliás), se relacionando, comprando casa. Mas tudo funcionando na lógica caótica dos Muppets, guardadas as devidas proporções, já que é pra se passar no mundo real.



E não só isso, o timming pra fazer algo do tipo também foi uma mão errada da Disney. Eles acabaram de lançar dois filmes rebootando os Muppets, ambos focados na família, e se saíram perfeitamente bem neles. E fizeram promoções dos filmes em jogos como Club Penguim, que é totalmente direcionado a crianças, fora jogos de smartphone. O público mais novo estava conhecendo esses personagens, aí a Disney vai e lança uma série com esses personagens focada em adultos. Poderia ter uma transição melhor, como por exemplo, um programa de variedades no estilo de Muppet Show e Muppets Tonight.



-Denise

Ignorando as reclamações de alguns grupos feministas por Kermit ter trocado Piggy por uma porca "magra, jovem e bonita" (sic), a maior reclamação de Denise era porque ela tinha, teoricamente, separado Kermit e Piggy, o que não é verdade.
Logo no primeiro episódio nos é mostrado que Kermit não aguentava mais os pitis e a atitude frescurenta e narcisista diva-like de Piggy. E durante a série, nem mesmo eu. Eu passei a não gostar das atitudes de Piggy durante a série, o que, de novo, combina com a proposta.


Aquela celebridade que tu ama, quem sabe se na vida real ela não é uma pessoa insuportável cheia de trique-trique? É esse o lado que a série quis mostrar, o lado real das celebridades. Já imaginávamos que Piggy seria uma diva narcisista, mas o que ela faz na série é ainda mais exagerado, e justificado pelo contexto, não sendo uma quebra de personagem.
Denise é compreensiva, alegre, fofa, competente no trabalho, e almeja melhorar e crescer na empresa (ela tenta fazer umas piadas vez ou outra), sem deixar de ser gente como a gente e ter surtos quando vê a CRISTINA CHENOWETE, por exemplo.
E em todos os momentos em que o relacionamento dela com Kermit foi posto em debate na série, ela agiu de maneira racional e lógica. Notavelmente emocional, mas ainda assim, racional e lógica.



A série como um todo tem MUITAS falhas, mas o que é interessant notar é que em nenhum momento ela sai dos personagens já estabelecidos e os desenvolvem de formas interessantíssimas. Junto com o filme The Muppets de 2011, talvez essa seja uma das produções que mais mostra os personagens como pessoas e os desenvolve dessa forma. Eu realmente torcia e achava fofo Fozzie namorando com Becky e como com o tempo ela se torna mais compreensiva, Rizzo tentando conquistar Yolanda, Uncle Deadly como suporte geral de Miss Piggy, e como com o passar do tempo eles entendem o que faz o Late Show e o que faz os Muppets tão interessantes: os relacionamentos entre os personagens.

São um bando de sapos, porcos, ursos, ratos, wathever, galinhas, e o cara de TI. Mas de uma forma lenta tanto os personagens como a própria série percebem que são essas coisas que nos fazem querer voltar a eles. É o que pode sair dessas combinações loucas, e até nos fazem torcer pra eles não só como Muppets, mas como personagens.



Eu quero ver os próximos passos de Kermit e Piggy; eu quero ver Gonzo, Rizzo e Pepe dividindo um apartamento e tentando se entender; eu quero ver Sam tentando conquistar Janice; eu quero saber como ficou o relacionamento de Scooter com Chelsea Handler, eu quero ver os novos quadros do Late Night. Não apenas do ponto de vista de puro entretenimento, como no Muppet Show, mas de um nível de personagem. Mesmo com algumas piadas fracas e forçadas, a série sempre tratou bem os personagens e nos fez nos importar com eles e suas histórias. Alguns mais, outros menos, mas é isso que acontece.

E aliás, parabéns pra dublagem brasileira, manteve o mesmo nível de qualidade dos filmes e ainda se superou.



Recomendo a série (inclusive dublada), e se a Disney quiser me contratar pra fazer parte da produção de uma nova temporada, aceito meu pagamento em coxinhas.

E Netflix, vamos conversar.


"São Longuinho, São Longuinho,
se a Netflix renovar a série
eu sou 100 pulinhos."


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