The Dark Crystal (O Cristal Encantado)




Jim Henson é uma lenda. O cara é o pai d'Os Muppets, Vila Sésamo, Fraggle Rock, e seu trabalho e de sua equipe está envolvido em tantos filmes e seriados que você se assustaria.

Nos anos 80, com o sucesso da série Os Muppets, Henson arrumou tempo pra fazer uma obra que surgiu durante um tempo vago com sua filha. Uma obra que seria marcante (pelo menos para os que a conheceram), para o bem ou para o mal.

Senhoras, senhores, gashapons. O Cristal Encantado.







A história começa como muitas histórias de fantasia começam: com um mundo que era lindo e verdejante, até que o Cristal Negro (ou encantado, como diz na versão brasileira) foi quebrado. Dessa ruptura, surgiram duas raças: os terríveis Skeksis, e os pacíficos Mystics.

Uma profecia diz que um ser da raça Gelfling será o responsável por trazer o equilíbrio de volta, restaurando o Cristal à sua antiga integridade.



Então conhecemos Jen, o último Gelfling. Seu clã foi destruído pelos Skekis (obviamente), e ele foi acolhido e criado pelo mais sábio dos Mystics, e antes que este morresse, contou sobre a profecia a Jen (porque raios não contou antes?) e o mandou pedir ajuda a Aughra.

E assim a história começa, incluindo ainda um Skeksi que foi banido do seu bando por ter perdido um duelo para se tornar imperador.

...é, parece um pouco confuso.

O desenrolar da história é uma das coisas mais confusas de se descrever que eu já tive que descrever.

Não é que seja ruim. Os climas criados são interessantes, variados, e identificáveis; as situações são facilmente compreensíveis... Mas os personagens não tem nenhum carisma. Os protagonistas, ao menos.



Vejam bem, sabemos pouco sobre os Mystics, mas acredito que o que sabemos é o suficiente (é um povo pacífico, então não há muito a se mostrar, imagino). Os personagens que aparecem no caminho (Aughra, o povo Ewok-wannabe) tem seu propósito e o cumprem bem, e podemos até nos lembrar dos seus traços de personalidade e trejeitos. E os protagonistas... É, eles estão ali.

Pra ilustrar esse ponto, vou fazer uma comparação.

Esses são os Skeksis comendo.



A cena do jantar é uma das minhas favoritas no filme. Porque? Porque ela mostra uma faceta muito interessante do grupo. E isso é demonstrado na forma que eles comem: apressados, se lambuzando, falando, comemorando a chegada de mais comida tendo a mesa ainda farta... Enfim, aquele esteriótipo de "gula" que nos faz lembrar de uma certa aldeia gaulesa irredutível.
Só que aqui eles são bem menos simpáticos.


E não só isso, mas cada um come de uma forma diferente dentro da mesma proposta. A ideia original era que cada Skeksi representasse um pecado capital, e essa ideia ainda está um pouco presente aqui. Enquanto uns comem com mais voracidade, outros comem com mais... Arrogância, por assim dizer.


E isso tudo eu pude deduzir da cena onde eles apenas comem.
Agora, sobre os Gelfling.

Em um momento, Jen encontra outra Gelfling, Kira. Obviamente, ambos ficam assustados porque "oh! então não sou o(a) último(a)!". O que nos levaria a bons momentos de conhecimento e conversas sobre o passado dos dois, correto?


Não. Jen está caído num lago raso, Kira pega na mão dele pra ajudá-lo a se levantar, e há uma conexão telepática entre eles onde eles compartilham pensamentos e memórias. É nesse momento onde sabemos detalhes (mostrados apressadamente) sobre o passado de ambos.

O que é engraçado, porque essa conexão não é mencionada nem explicada depois, simplesmente acontece.

No mais, Jen atua muito passivamente a tudo. Tanto é que, se não fosse Kira, ele teria ido pro lado negro da Força.

...o que não quer dizer que Kira tenha personalidade. Mas ainda tem mais que Jen.

E enquanto eu pesquisava sobre o filme, eis que descubro o IMDB do escritor do roteiro (o argumento foi de Jim Henson).

E eis que descubro que ele escreveu o filme de He-Man e o filme da Supermoça.
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...olha, se o cara escreveu o roteiro de He-Man e Supermoça, me perdoe, mas ele acaba de carimbar o selo no vale de Bullying Eterno.


Mas o que o roteiro falha em desenvolvimento de personagens, ele acerta no visual. E Henson acertou em cheio ao trazer Brian Fround para fazer o design dos personagens e do mundo. E claro, à capacidade da equipe de confecção e aos muppeteiros.
...existe tradução pra "muppeteer"? Enfim.


Todos os personagens se movem com naturalidade (pelo menos o máximo possível pra 1982 com aquela tecnologia e o nível dos marionetes), e em alguns momentos cheguei até a duvidar se eram de fato apenas marionetes, devido ao realismo contido na cena.


Os cenários são magníficos. Assim como os personagens e as roupas, os cenários e elementos são extremamente bem detalhados e que  realmente te fazem querer conhecer mais sobre o mundo criado...
...se não fossem os personagens mais planos que uma folha de papel.

Combinando com o cenário, a trilha sonora dá o tom necessário e que é original o suficiente pra marcar o filme, mas que não tem muito a oferecer como melodia.

The Dark Crystal é um filme que teve lá seu sucesso, seu lucro (custou 15 milhões e arrecadou 40 milhões), foi bem nas críticas e nos cinemas europeus e japoneses, e hoje ganhou uma legião de cultuadores. Tanto é que até hoje já recebeu reimpressões revisadas de novelização, adaptação pra quadrinhos, e projetos de jogos foram feitos, provando que há sim, um grupo que aprecia o universo estabelecido no filme.

(Só não fez sucesso na época por apresentar visual bizarro e assustador (é um filme pra crianças), pelos temas mais sombrios, e por estar brigando diretamente com E.T..)

E de fato, é assim que eu entendo o filme. É uma experiência, uma jornada (que é muito palpável na Jornada do Herói), descobrir sobre esse mundo. Aliás, uma das falhas do filme é justamente o final péssimo, totalmente aberto (no sentido ruim). Que, na verdade, pode ser (se é que não já foi) continuado em alguma mídia.


O fato de que no começo Henson não fazia ideia de roteiro ou de como seria, apenas uma leve ideia do que ele queria fazer, me leva a pensar que era justamente isso que ele queria. Testar ideias, se reinventar, se reciclar, sair da zona de conforto de piadas, piadas "ruins", bonecos cartunescos, animais falantes, e ir pra um campo que não havia sido muito explorado no formato que ele fazia.

E quer saber? Conseguiu. É um mundo fantástico, com criaturas criativas e com excelentes momentos e atmosferas. Só me deixa chateado o cara, a equipe dos Muppets, não conseguir colocar uma gota de carisma nos protagonistas.

É um excelente filme pra desligar o cérebro p(até pela sua previsibilidade), e aproveitar a viagem e os visuais. Recomendo muito.


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