[Mês do Dr. Seuss] O Lorax (2012)


Olá, meus queridos leitores chocolatantes e entupidos de empanado de frango. Sim, todos os 2. No ano passado, como bem recordam, eu iniciei o Mês do Dr. Seuss, tradição que pretendo manter até não ter mais o que falar do nosso amigo rimador.

E esse ano irei abrir com um filme curioso, o qual nem necessitou meu estudo em Dr. Seuss pra perceber que esse filme é uma bela porcaria.
Sim, antes mesmo de eu começar a ler os livros, estudar a vida do cara, eu já percebi que era um filme ruim, em vários sentidos.


Então, vamos dar uma olhada em O Lorax, de 2012.




Após os eventos de O Dia em que a Terra Quase Se Matou (também conhecido como a estréia de The Cat in the Hat de 2003), a viúva de Dr. Seuss proibiu que fizessem outro live-action baseado nas obras de seu marido. E depois do sucesso de Horton e O Mundo dos Quem (o qual eu ainda não vi), ela resolveu tentar mais uma vez, se aproximando da Illumination Entertainment, cujos únicos filmes eram Meu Malvado Favorito e Hop. Mas o chefão da Illumination é ex-presidente da 20th Century Fox, tendo inclusive supervisionado Horton e O Mundo dos Quem. Então parecia ser o movimento correto da Sra. Seuss.

E nesse momento nós percebemos
que não foi. Mas a Sra. Seuss
gostou do filme, né.

O Lorax de 2012 é ligeiramente baseado no especial de TV de 1972, que por sua vez é baseado no livro de mesmo nome lançado em "eu não tou com saco de ir atrás da data de publicação do livro".


Na história original, um moleque vai atrás de um ser vivente chamado Onceler, pra saber o que aconteceu com as árvores de Trúfula, e ele conta pra ele como ele as usou pra criar uma roupa revolucionária chamada de Thneed.
Ela servia pra tudo, desde camisa, chapéu, rede, e o que você quisesse. Mas ele é visitado por um ser laranja com a voz do Phil de Hércules chamado Lorax, que é tipo o Curupira, só que mais fofinho. O baixinho alaranjado o avisa pra parar de cortar as árvores, e o Once-ler até que tenta ouvir o cara, a té que seu invento vira um sucesso e ele chama sua família pra tocar o negócio.

Isso só foi engraçado em Robôs porque
a mulher de fato ela era feia à beça.
E dublada por um homem.

Mais rápido que você pode gritar "Camisa Volta ao Mundo", o Once-ler começa a fabricar em massa o Thneed, e a cidade muda de nome em homenagem a ele e sua invenção, celebrando sua geniosidade nos negócios. Mas elese esquece de regras básicas de empreendedorismo e acaba com todas as árvores, logo Once-ler  e não pode mais fazer nenhum Thneed.

É isso que dá não fazer Senai.


E então ele deixa a última semente de Trúfula com o moleque, para que ele decida o que fazer a seguir.


Embora o especial de 72 seja levemente datado, ele ainda se sustenta muito bem, com uma mensagem passada de uma forma eficaz e fiel ao livro.
Os produtores se perguntaram "Hm, como podemos estragar mais esse clássico?", e assim se fez O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida.



Que, aliás, se parar pra pensar, é um título imbecil. Digo, o público BR não conhece Dr. Seuss (como Dr. Seuss, isso é. Se perguntar sobre o Grinch todo mundo vai saber; se perguntar sobre The Cat in the Hat ou vai lembrar do desenho que passava no Discovery Kids ou vão passar dois minutos em transe, tendo flashbacks de guerra), então faz sentido botar um subtítulo. Entretanto, NINGUÉM SABE O QUE RAIOS É UMA TRÚFULA. É um chocolate? É um jogo de cartas? Truffula é uma planta inventada com um nome que realçava a qualidade lírica do poema do livro. O subtítulo não faz sentido!


Mas voltemos ao filme.

O filme se passa numa cidade onde absolutamente tudo é industrializado, até as árvores e o ar. Somos apresentados a Ted (Zac Efron), que é um moleque desastrado e sem jeito tentando conquistar Audrey (Taylor Swift). Ela é uma garota sonhadora, meiga, ruiva, e cujo sonho é ver uma árvore de verdade. Então Ted , munido de toda sua idiotice juvenil e sem saber que seu único futuro seria servir de inspiração pra uma futura música de Audrey, vai atrás do único cara que sabe onde arranjar uma árvore: o Once-ler.

E não, não o chamarei de Umavezildo. É um nome grande demais. Mas boa adaptação, soou mais natural que Gatola na Cartola.


Mas há uma pessoa que não quer que as árvores voltem: o vilão rejeitado de Capitão Planeta: O'Hare. Ele é o cara que vende ar fresco em garrafões, o que levanta muitas dúvidas, mas é um desenho baseado no Dr. Seuss. Um pouco de reality-bending não faz mal.

...essa palavra existe né?


Então o Once-ler conta a Ted sobre como ele se tornou ganancioso e destruiu tudo e... Ugh. É ruim.


Digo... Meu Deus, como é ruim.

O primeiro problema é que os protagonistas são extremamente sem graça. Ted e Audrey são o casal adolescente quintessencial de Sessão da Tarde. Ash Ketchum e a Mary Jane em Pequenos Guerreiros tem mais carisma e química que esses dois fantoches digitais. Ted é o moleque que não tem noção nenhuma da vida, mas que tenta impressionar Audrey, que é claramente mais velha que ele (em suas próprias palavras, "Ela é uma mulher, já tá no Ensino Médio. Implicando que se alguém tá no Ensino Médio é automaticamente maduro e responsável, mas eu vou deixar a oportunidade de fazer uma piada ou rant sobre isso, porque eu já divaguei demais hoje). Enquanto Audrey é a típica "girl next door", mas ao contrário de, sei lá, Betty Cooper, ela é completamente... Meh. Não há nada que a marque, nada que a caracterize, ela basicamente só tá lá porque o plot exige que Ted tenha uma motivação pra ir atrás do Once-ler.


Oh, o Once-ler...

Eu provavelmente vou ficar bem pessoal nas próximas linhas.


Se você não viu o especial de TV, o Once-ler (bem como todos os outros parentes e humanos) são retratados com a mesma roupa, de mesma cor, sem nunca mostrar o rosto. Isso funciona brilhantemente, porque a mensagem é que qualquer um pode se tornar uma pessoa horrível, se consumida pela ganância.


Embora eu reconheça perfeitamente que , em uma hora e meia de duração, essa tática não funcione muito bem (a menos que você tenha um diretor/produtor brilhante, porque não é impossível. É difícil, mas não impossível), precisava tornar o cara o mais datado possível? Esse filme foi lançado em 2012 e ele já parece risivelmente antiquado, como raios isso é possível?


Ele foi feito pra ser a quintessência do cantor pop da época, provavelmente pra ser mais próximo dos jovens. E eu totalmente consigo ver esse ponto de vista, se não fosse o fato de que isso elimina o conceito de que o Once-ler pode ser qualquer um, ou que ele deveria representar grandes corporações ao invés de um único sujeito.

E claro, criar um vilão pra receber toda a culpa.


A mensagem do Lorax é que todos nós podemos e, até certo ponto, somos culpados. Todos temos a responsabilidade de cuidar da natureza e blablabla, vamos deixar nossa escola brilhando com esta canção.  Mas toda a responsabilidade e culpa vai pro cara esteriotipadamente vilão, ao invés de mostrar que pode ser qualquer um, eu e você, te deixando em uma posição confortável.


O Lorax original apontava na sua cara e dizia seu erro, mas fazia isso de uma forma madura e racional. No curta, tanto o Lorax como o Once-ler expõem seus pontos de vista, e ambos chegam em um ponto que dizem "eu entendo o seu lado". Não é uma decisão fácil, é necessário respeitar as árvores, mas ao mesmo tempo não impedir o progresso, incluindo demissão em massa dos funcionários.

E o que o filme faz com isso? Joga pela janela e transforma numa luta de bem contra o mal sem um lado cinza, ou mesmo um diálogo.


Eu até consigo aceitar a narrativa singular do Once-ler, ele é um sujeito que começou pequeno (como Walt Disney ou o Sílvio Santos) e agora tem uma mega empresa, e é natural que o sucesso suba à cabeça. E serve de alerta praqueles que estão no topo ou almejam estar lá.

Mas a execução do personagem e da própria narrativa é abarrotada em cenas fofinhas sem motivo, e paródias que seguem a cartilha do Irmão Wayans. Isso tudo, bem como o resto da história de Ted (que também é extremamente formulaica) acaba contribuindo pra que o resultado geral seja "meh".

"Olhem só! Missão Impossível existiu!
POR FAVOR RIAM!"
Eu juro, se não fosse o post-it no meu monitor eu nem lembrava de resenhar esse filme, porque ele não deixou absolutamente nenhuma marca. Nada pra se pensar. Enquanto o especial termina com o moleque com a semente em mãos, nos deixando a reflexão, o filme termina com (mais) um musical extremamente sem graça e feliz.

A única coisa que esse filme faz direito é o design de produção, que acerta em cheio nos designs Seussianos que, ao meu ver, não é fácil de ser replicado com fidelidade. Ainda mais quando se cria cenários e personagens novos. Ele é colorido, cheio de curvas, mas ao mesmo tempo sabe quando precisa ser sombrio e seco, bem como o especial original.


Mas até o design de produção se torna cansativo, maçante, e formulaico, quando você finaliza o produto final. As músicas são sem sal, os personagens são tão interessantes quanto conversar com uma escultura de Lego, e as decisões de adaptação de história, embora necessárias e bem intencionadas, não são completamente desenvolvidas e acabam causando mais prejuízo que benefício.


É um filme com morais erradas? Não, ele só não consegue passar a mensagem dele da forma certa. Se fosse uma história completamente original, eu nem teria muito do que reclamar, seria só mais um filme pra se passar na Sessão da Tarde e manter teus pivetes calados por uma hora e meia. Mas se trata de Lorax, de Dr. Seuss. Um cara que sabia como fazer mensagens relevantes de uma forma necessária e divertida pras crianças. Ele não tratava elas como meros números num gráfico, ele as tratava como seres humanos pensantes, e que talvez precisassem desse choque que o livro e a animação causam.

Eles te deixam desconfortável, mas apenas o suficiente pra que tu reflita. Ele sequer te dá um final, isso é até estranho em se tratando de entretenimento pra crianças.


O filme em si não tem nada moralmente errado que não possa ser mostrado pra crianças, mas se quer que sua criança entenda mesmo a mensagem do filme, mostre a versão de 72. "Ah mas é chato demais, é antiquado demais, a nova é mais coloridinha e alegre" Então você é tão covarde quanto o filme.

Aliás, antiquado uma pitomba, os desenhos de Peanuts foram feitos pelo mesmo estúdio, no mesmo estilo, e continuam atemporais até hoje.


E ALIÁS, daonde raios o Once-ler arranjou a última semente? No curta eu nem reclamo muito porque tudo é simbólico, é pra ser um conto curto. Mas no filme, dava tempo de ter desenvolvido melhor isso. Pelo amor de Oz!


E por hoje é só, aguardem semana que vem onde eu darei prosseguimento ao Mês do Dr. Seuss.

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