[Batalha de Versões] Milagre na Rua 34


E pra encerrar o ano, vamos dar uma olhada em um dos filmes mais clássicos de Natal: Milagre na Rua 34.

Pra quem não sabe, o filme de 94 é um remake do filme de 47 (que aqui no Brasil recebeu o título de “De Ilusão Também se Vive”, segundo o IMDB), e creio que 90% de vocês só viram a versão de 94 com a Mara Wilson e o carinha lá do Jurassic Park.


E embora nós lembremos da versão de 94 com carinho, qual será de fato a melhor versão? É pra isso que eu tou aqui então vem comigo pra mais uma Batalha de Versões.




Melhor Roteiro

O plot dos dois filmes é praticamente igual, a única coisa que o filme de 94 faz é atualizar algumas coisas pequenas.


A história começa na tradicional Parada de Dia de Ação de Graças, mas o Papai Noel é demitido porque ele tava bêbado e impossibilitado de trabalhar. Então Doris, diretora da Parada, o contrata de última hora um velhinho que se apresenta como Kris Kringle, e acaba virando o Papai Noel oficial do shopping que participava da Parada. Susan, filha de Doris, não acredita em Papai Noel, mas após conhecer Kris passa a querer acreditar.

Ao mesmo tempo, alguém tenta sabotar o trabalho de Kris, que após uma série de eventos vai a julgamento para ser considerado ou não o verdadeiro Papai Noel.



Então, é… Tem muita coisa acontecendo, muito subplot, mas de alguma forma a gente consegue acompanhar tudo, e lembrar bem de tudo.


O roteiro da primeira versão é muito bom, bastante original. Ele pega a ideia de “julgar se um cara é o verdadeiro Papai Noel” e trabalha tudo em cima disso.
Os personagens são bons, cada um tem seus problemas, suas crenças, e conversam sobre isso e tentam se entender. Eles não são extremamente explorados, mas o suficiente para nos guiar e haver transformação neles.



No remake, algumas mudanças tiveram que ser feitas, mas eram mudanças pequenas. Como por exemplo, Kris fala com uma garotinha muda ao invés de uma estrangeira; e Doris já conhecia o vizinho com quem Susan estava, enquanto no original Susan tava com o cara e a mãe não conhecia. Esse último mostra a diferença de tempos, assim como em Mary Poppins a mãe confia em Bert para cuidar das crianças. São mudanças pequenas e que não fazem tanta diferença.

Por outro lado, o filme acaba por seguir a fórmula final dos 90's/início de 00's. Doris e o vizinho advogado tem um interesse romântico, o que não é ruim, não me entendam mal, mas na versão original fluía mais naturalmente, era algo que ia crescendo, algo implícito, mas ao mesmo tempo que se notava com facilidade. Na versão de 94, é tããããão clichê.



E não é só clichê, mas é forçado. Os diálogos são forçados, os atores são forçados, e a química entre os dois é totalmente previsível e inexistente. Você sabe exatamente o que vai acontecer, como vai acontecer, e é um negócio constrangedor de tão... não-natural que é. Eles tentam explorar demais o psicológico dos personagens, mas não sabe como fazer, enquanto o original se mantinha em sua zona de conforto, no bom sentido. Ele não os explorava a fundo, mas os deixava identificáveis e acompanháveis.



O terceiro ato, onde ocorre o julgamento, normalmente é o que mais lembramos, e curiosamente, nos dois há uma semelhança imensa, quase nada foi mudado. O ponto principal é o argumento vencedor.

Na versão de 47, eles usam um argumento mais concreto, baseado nas cartinhas que as crianças mandam pro Papai Noel. Enquanto no remake, eles usam algo mais filosófico, com base em crença.

E embora eles desenvolvam bem no remake, no final deixa um gosto agridoce de algo que poderia fazer sentido, mas é complicado demais pra acompanharmos e considerarmos algo final.

Então… É, ponto vai pro antigo.



(47) 1 x 0 (94)


Melhores Protagonistas


Esse é um ponto difícil, pois ambos os Noéis tem excelentes performances. Levemente diferentes, mas cada um excelente à sua maneira.



Edmund Gwenn (1947) é muito genuíno, ele tem um brilho no olhar, um prazer na voz, um deleite quando fala com crianças, assim como quando fala com adultos. Ele tem uma simplicidade e humildade que transbordam de uma forma que dá vontade de abraçar ele e ser como ele.



Richard Atte… At...Attenbororg… John Hammond também é formidável como Kris, e de longe a melhor atuação do filme (o que acaba sendo destoante do resto do elenco, mas já chegamos lá). Ele é amável, carinhoso, tem um sorriso adorável… Praticamente estudou a atuação de Edmund e adaptou pro seu próprio estilo.




Natalie Wood mesmo sendo pequena, tem uma atuação muito boa. Como Susan foi criada pela mãe ignorando todo aspecto fantasioso do mundo, ela é basicamente uma mini-adulta. Ela não consegue se enturmar com as outras crianças por justamente não conseguir fingir, e é simplesmente uma atuação incrível, porque ela tem uma evolução, ela começa falando como gente grande, aos poucos começa a perceber que precisa de um pouco de fantasia pra vida ter graça. E além disso, soa natural, como uma criança criada pra pensar como adulto falaria.



Enquanto Mara Wilson soa artificial em todos os momentos, especialmente quando tenta falar como adulta. Pense no guri de Home Alone 3. Pronto, é tipo aquilo.


Mas, pro crédito dela, ela nunca gostou de atuar, e basicamente fazia o que o diretor mandava. Ela tinha o tom de voz naturalmente fofo, mas não sabia como usar ou quando usar. De novo, não era fã de atuar.


(43) 2 x 0 (94)





Melhores Personagens de Suporte



Como eu falei, os personagens na versão original não são tão explorados, mas não quer dizer que eles sejam simples. Pouco a pouco vamos descobrindo os motivos de cada um, em especial porque Doris cria sua filha isentando-a de histórias fantasiosas. E é bem conduzido.


E surpreendentemente, o remake também faz isso direito. Na maior parte do tempo.



Enquanto não se preocupa em tentar desenvolver o relacionamento da Doris com o advogado lá, temos momentos que soam mais genuínos, como Doris conversando sobre crenças pessoais com Susan, ou com Kris tendo uma conversa quase de pai e filho com o advogado.

Não, eu não lembro o nome dele, dane-se.



Uma mudança imensa que temos no roteiro é em relação ao personagem que quer tirar Kris Kringle do papel de Noel. No original, é o psicólogo do shopping, que diz que Kris é louco por dizer ser o verdadeiro Noel; e no remake são espiões de outro shopping que, junto com o Papai Noel Bêbado tentam incriminar Kris.


Ambas as versões funcionam bem… E só. Ambas tem suas falhas. Por exemplo, o psicólogo passa a ser mais ferrenho pra provar que Kris é doido porque Kris começou a dizer quem o psicólogo era, os problemas dele, em casa, etc. Meio que sujou a honra dele e… A menos que o psicólogo seja realmente doido, não é um motivo muito forte.



Por outro lado, o shopping rival não tem motivo pra mandar os espiões pra tirar Kris do negócio, uma vez que, como vocês se lembram, ele tava mandando o pessoal comprar em outras lojas, caso eles não tivessem o brinquedo que a criança queria. Então, win/win.


E se eu tivesse algo pra reclamar da versão de 47 provavelmente seria que, no terceiro ato os personagens são meio confusos visualmente, mas é mais cata-piolhagem minha.


Por guiar melhor os personagens de apoio (ao menos os mais próximos ao eixo principal), ponto vai pro antigo.



(47) 3 x 0 (94)


Melhor Filme



A versão de 47 tem um certo charme, mas é notório que a narrativa é datada. Praticamente não tem música, o timming das cenas e de transição são estranhos pra nós, que estamos acostumados muito mais ao estilo de narrativa que a versão de 94 apresenta, mais dinâmica, com música, etc.


No entanto, a versão de 47 tem uma simplicidade que a de 94 não tem. Por exemplo, quando Kris bota a roupa de Papai Noel pela primeira vez (a própria roupa, quando ele vai trabalhar no shopping), toca uma música bonitinha, a câmera desfoca, tem luzes suaves e brilhantes… Tudo nos indicando que ele é de fato O Papai Noel.


Enquanto na versão de 47 é tudo mais simples e direto, algo pra você assistir e tirar suas próprias conclusões. Até o momento final, Kris pode ou não ser o Noel, você pode fazer argumentos. E embora o remake também tente na maior parte do tempo fazer isso, essa cena tira esse intuito. É quase como querer que duvidemos se Tim Allen é o verdadeiro Noel depois de ter nos mostrado todo o Pólo Norte, sem nos dar alguma indicação de que aquilo é o sonho, mesmo que seja real.


No geral, a narrativa de ambos tem suas falhas: a de 47 sendo lenta e seca demais, e a de 94 sendo dinâmica e enfeitada demais.

Mas, pro propósito do filme, a de 47 funciona melhor. Então, como era esperado, 47 vence.




Vencedor: 1947




Obrigado a todos que nos acompanharam esse ano. Foi um ano meio complicado pra mim, com muita coisa acontecendo, que me impediu de produzir mais pra cá. Aos poucos vou tentando retomar nos eixos, em especial no tocante aos vídeos, já que ainda tou com problema de bateria na câmera.

Mas hey, o foco do blog são os textos, e ainda teremos a Hensonspectiva.



Feliz Natal, boas festas, feliz ano novo e até o ano que vem! Se cuidem.

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