Chicken Little (2005)


Eu queria deixar pra resenhar esse filme depois, mas fui desafiado pela minha amiga Ana Thereza.

Eu pretendia falar dele na retrospectiva Disney, mas de qualquer jeito vai demorar uma eternidade pra eu chegar nele.

E já faz um tempo que eu pretendo falar desse filme.

E vamo deixar de papo e começar logo essa bagaça.




Eu não sei se vocês lembram (provavelmente por serem jovens demais), mas teve um tempo que os filmes animados da Disney estavam em baixa.

Não que eles fossem exatamente ruins ou que tivessem recebido críticas agressivamente ruins, mas eles não tinham o mesmo brilho de antigamente. Foi nessa época que veio filmes como Planeta do Tesouro, Mogli 2, Leitão O Filme, e Irmão Urso. Mogli 2 e Leitão foram feitos pelo estúdio Disney Toon, responsável por fazer o “resto” de animação, que incluía séries pra TV e continuações. Às vezes essas continuações iam pro cinema, mas era bem mais comum irem direto pra vídeo.

O último sucesso do estúdio tinha sido mesmo Lilo & Stich, e Disney observava o crescimento da Pixar com Procurando Nemo e Os Incríveis. A gota d'água veio com Nem que a Vaca Tussa, que foi um dos momentos mais baixos do estúdio (em termos de crítica e retorno financeiro).

Foi então que alguém no estúdio achou que a resposta fosse simplesmente porque “o público não aguenta mais animação 2D”.

Eu poderia me demorar nesse ponto, mas seria divagação demais.

Porcausa dessa mentalidade (e porque o contrato entre Disney e Pixar estava perto do fim, gerando altas tretas internas), a Walt Disney Animation Studios lançou o primeiro longa totalmente em 3D sem a ajuda da Pixar.

E rapaz, como eles precisavam dessa ajudinha.


A história é baseada em um curta de 1943 (que por sua vez foi baseado em um conto folclórico), que servia pra mostrar como desestabilizar uma nação, completo com a raposa lendo Mein Kampf.
Sim, mudaram pra Psicologia na versão final, mas a original era Mein Kampf, e o texto que ela lê ainda é de Mein Kampf.

Na versão de 2005, a história é expandida e adaptada. Tudo começa quando o galinho Chico Liro faz um alvoroço na cidade, porque ele acredita que o céu tá caindo. Ao tentar explicar pro povo da cidade, uma avelã atinge sua cabeça e todos acham que foi um engano de Chico.

Um ano depois, vão fazer um filme sobre o ocorrido, o que mostra que o cinema da cidade é ainda menos desenvolvido que o nosso cinema nacional. Mas pelo menos o quadro de patrocinadores não parece com uma equipe de Fórmula 1, então acho que eles tão no ganho.



Galinho faz planos pra voltar a ter alguma moral na cidade jogando baseball, assim como seu pai. E a metade do filme segue absolutamente todos os clichês de filme de esporte que existem no livro. Sério, dá pra fazer um bingo, incluindo montagem de treinamento; pegar 2 strikes; acertar a última rebatida contra todas as leis da lógica, física e probabilidade, e é salvo por um milímetro no último segundo de jogo.

A cena em uma casca de noz:
cidade odeia galinho/cidade ama galinho
Pra depois odiar de novo.

Mas quando tudo parecia bem, um pedaço do céu realmente cai na sua cabeça, o que leva Chico Liro e seus amigos a descobrir uma invasão alienígena, o qual eles precisam impedir.


A primeira coisa que salta aos olhos é o quão datada é a animação. O estilo adotado como um todo faz referência aos desenhos dos anos 40-50, mas com um conceito mais modernizado. O que é ótimo, aliás, funciona muito bem em termos de design.

Entretanto, não demora muito a notar que as texturas e iluminação do filme deixam a desejar em muitos momentos, criando mais ou menos o mesmo efeito de datação de Vida de Inseto. Em especial em Buck, pai de Chico. Às vezes ele parece ser feito de plástico fosco, a luz simplesmente não reflete direito.
Isso também afeta os animais de pêlos, como o caso de cachorros.

Tenham em mente que essa é
a primeira cena no filme.

Obviamente a equipe não tinha muita experiência com animação 3D, mas não justifica em nada ter uma quantidade absurdamente pequena de figurantes. Eu juro, GTA tem mais variedade de figurantes que Chicken Little. Ao ponto de o mesmo personagem aparecer quase instantaneamente em duas cenas seguidas. Mais de uma vez.

Mas, tudo isso, eu consigo perdoar. Época complicada pro estúdio, filme feito quase em cima das coxas (imagino), pouca experiência com 3D.

O que eu não consigo perdoar é o roteiro.

E aquela vontade de comer um galeto com farofa
só aumenta...

Disney pode não saber bem como usar o 3D, mas sabe muito bem como contar histórias. Mas esse filme é definitivamente um dos pontos mais baixos em termos de narrativa.

Vamos combinar que ESSA CIDADE É FEITA INTEIRAMENTE DE BABACAS.
Fora Chico Liro e seus amigos, TODO MUNDO NA CIDADE É UM BABACA.


Chico acha que o céu tá caindo e quase deixa a cidade em estado de calamidade pública. O próprio pai diz basicamente pra ele sumir e pra não criar grandes expectativas pelos sonhos. Isso porque eu nem mencionei que no episódio da avelã, enquanto todo mundo julgou Chico, Buck não fez absolutamente nada pra consolar o próprio filho, mesmo dizendo que foi só um acidente. Ora raios, se foi só um acidente VÁ VER SE O TEU FILHO TÁ BEM, SEU RESTO DE NUGGET MOFADO.

Um ano depois, Chico vence o torneio de baseball, e vira o novo messias da cidade, e até Buck passa a tratar ele bem (gritando durante a comemoração “Esse é meu filho!”). Na mesma noite, ele descobre sobre a invasão dos aliens, alerta a cidade, dá o mesmo problema da avelã e ninguém acredita mais nele.

NEM O PRÓPRIO PAI.


E esses foram só os pontos que mais chamam a atenção, mas esse sentimento de crueldade perpetua pelo filme todo, sempre personificado pela cidade. Isso acaba atrapalhando o desenvolvimento de Chico, ele não nos dá um motivo concreto pra gostar dele. Deveríamos gostar dele só porque a cidade toda não gosta dele…?

SÉRIO TODO MUNDO É BABACA

Outro ponto que é irritantemente cansativo são as piadas referência e piadas de segundo plano. As piadas de segundo plano tentam desenvolver o mundo que estamos sendo apresentados, e no geral, não são exatamente ruins, mas não foram lapidados.

Por exemplo, tem um peixe que dirige um carro em forma de aquário. Como raios ele sai de lá pra trabalhar? Ele mora no carro? O aquário é deslocável?

Tem um cachorro aparando a grama com um amigo cabra. Isso é comum por aqui?

Tem uma cegonha batendo no vidro de uma loja de porcelana, que chama a atenção do touro de dentro da loja, que vê a cegonha desmaiada de tanto bater no vidro, limpa o vidro e volta pra loja. Qual é a da cegonha? Essa cena existe só pra fazer referência ao provérbio “touro em uma loja de porcelana”?


O que esse filme não aprendeu é que, não é por fazer referência a algo popular, torna a piada engraçada. Tem uma cena onde os aliens perseguem os protagonistas num milharal, e acabam fazendo os desenhos de Sinais.
“Ha-ha! É engraçado porque existiu!” Raios, é Scary Movie fazendo escola, a referência não faz o menor sentido no contexto. Quais as chances dos aliens fazerem os exatos desenhos de Sinais enquanto tentam capturar o grupo de protagonistas?

E fica pior quando a referência não faz sentido dentro do contexto e gera ainda mais dúvidas. Como na primeira cena, onde os animais assistem Caçadores da Arca Perdida, pra bola que serve de caixa d'água da cidade passe pela tela como se fosse a bola armadilha clássica.

Ou quando o Peixe Fora D'água pega as revistas da Abby pra brincar de King Kong, por nenhum motivo exceto que os filmes existem.

Esse mundo habitado por animais antropomórficos tem filmes com humanos. Como eles tem esses filmes? Eles sabem o que é um humano? Se o filme foi feito no universo dos animais, como eles fizeram os efeitos visuais dos humanos?

“Ah Mapan mas cê só pensou nisso quando assistiu agora.” Negativo, quando eu vi menino rréi amarelo do buchão com 11 anos eu já pensei nesses buracos argumentais.


Parafraseando Mr. Enter, “nessa época a Disney não era dona da Lucasfilm, eles tiveram que pagar por uma piada confusa e forçada, que sequer teve graça. Esse fato é o mais perto de uma risada que você terá deste filme”.


A única piada nesse estilo que eu achei levemente engraçada foi a do suicídio dos lemmings, que faz referência a uma controvérsia de outro filme Disney, mas unicamente pelo fato deles zoarem uma polêmica do próprio estúdio.

A animação referencia os desenhos
clássicos, e às vezes faz um bom trabalho.


Meu Deus, esse filme é uma bagunça. O que é uma pena, porque ele tem muita coisa boa. O clímax funciona relativamente bem, os aliens e as espaçonaves tem um design interessante e que ajuda no plot twist, o design dos conceitos de cenário e personagens são bonitos e eficientes, e tem legítimas boas idéias no filme, mas que por um motivo ou por outro, acabaram sendo estragadas por morais passadas de forma confusa e por seres que não tem moral NENHUMA pra passar moral (oh, Buck, como eu te odeio, mesmo os momentos que cê tenta apoiar teu filho soam forçados), animação inexperiente e estranha, e piadas forçadas que tentam apelar pro popular, e até pra trilhas sonoras populares porque MOTIVOS.



Até o suposto romance entre Chico e Abby é forçado à beça. O momento no cinema durante o clímax vem literalmente do nada. Entretanto, a cena dos dois assistindo o filme é fofinha, sutil, e funciona bem dentro da lógica. Tem uma boa idéia aí e a cena é legitimamente bem executada, mas graças a essa cena anterior vai tudo por água abaixo.


Sabe o que esse filme parece? Parece um filme da DreamWorks (ou algum estúdio de fundo de garagem) tentando ser Disney. As piadas forçadas e baseadas em imagens e sons populares, morais mal executadas, personagens e narrativa escritos horrivelmente de qualquer jeito, estragaram todo o charme que esse filme poderia ter.



O único motivo pelo qual se deveria assistir esse filme seria pra ver o que não repetir no futuro. Até porque esse filme veio numa fase beeem experimental da Disney como um todo (com o fim das sequências de clássicos e vez ou outra pipocando um filme baseado em uma atração dos parques).
Caso contrário, é um forte candidato a evitar a todo e qualquer custo.


E sim, eu gostava desse filme quando pirralho, ainda gosto de algumas coisas. Não quer dizer que eu não admita que ele é ruim e que eu vá recomendar. É totalmente comum isso acontecer no Teste dos 15 Anos. E esse filme definitivamente, não passa no Teste.

E antes de eu ir, um momento deliciosamente irônico:


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