Saving Mr. Banks



Mary Poppins é um daqueles filmes que nunca fica velho, e cada vez que eu assisto, ele só fica melhor. Assim como O Mágico de Oz, ele tem um charme e conteúdos atemporais. E assim como O Mágico de Oz, aconteceu muita coisa nos bastidores.

Mas enquanto na aventura de Dorothy as coisas foram apenas desordenadas em relação a interpretação e execução, em Mary Poppins as coisas foram um pouco mais… Desastrosas.

Mas ao invés de me ouvir falar sobre os bastidores, você pode pegar rotas mais interessantes, como comprar o DVD duplo de Mary Poppins (com os extras n'stuff); ou assistir a Saving Mr. Banks.
De qualquer jeito, vai ser um bom aproveitamento do seu tempo.




O filme conta (de uma forma romantizada, já chegamos lá) sobre como se deu a produção do filme Mary Poppins. Especificamente, durante o início da produção, quando a autora do livro, PL Travers, passava por problemas financeiros e finalmente decide aceitar a proposta de Walt Disney, que já vinha tentando conseguir os direitos do livro há 20 anos.


No entanto, a senhorita Travers tem várias exigências pro filme. Várias. E isso acaba atrapalhando o desenvolvimento do filme e até mesmo criando um clima ruim nos brainstormings. Agora é uma batalha intelectual entre Walt e Travers, pra decidir como vai ser o filme.

O ponto que mais chama a atenção logo de cara é que é um filme muito adulto e maduro. É uma biografia, é claramente um território estranho pra Disney. Mas eles fazem um bom trabalho em manter a seriedade na maior parte do tempo, tentando contar a história da melhor forma possível, respeitando as pessoas em que foram baseadas, bem como as situações.

As atuações estão perfeitas. Emma Thompson como PL Travers no início é uma esnobe britânica irritante que dá vontade de dar um soco a cada reclamação que ela faz, mas que aos poucos ela amolece e se torna até mesmo agradável. E o interessante é como algumas reclamações de fato tinham um fundamento imenso na história, como o de retratar o Sr. Banks como o vilão do filme. Esse é um dos pontos-chave que tornam o filme tão atemporal e maravilhoso.


Tom Hanks também está formidável. Sim, no início é estranho ouvir a voz do Woody vir de Walt Disney, mas com o tempo a atuação dele se mostra bastante competente e estudada, e perfeitamente executada. Ele é dinâmico, brincalhão, sério, e quando analisa as coisas feitas pro filme parece um misto de homem de negócio e artista, justamente como imaginamos que ele fosse. E até mesmo vemos ele xingar, beber e fumar. Por pouco tempo, mas tá ali, mostrando alguns defeitos dele.

O pessoal da criação também está incrível, com destaque pros Irmãos Sherman, que conseguem fazer tanto momentos genuinamente engraçados como momentos mais dramáticos.


E uma das questões que esse filme mais toca é justamente a da adaptação. Eu sempre digo, uma adaptação PRECISA tomar certas liberdades pra funcionar, contanto que se mantenha no espírito da obra original. Com a mesma confusão que eu ouvi gente reclamando da cor do cabelo da Annabeth em Percy Jackson, um dos Irmãos Sherman ouviu PL Travers reclamando do fato de que o Sr. Banks tinha bigodes. E nesse momento ele soltou um sonoro “E isso importa?”. Duas vezes.
E num ato Herosástico, PL Travers expulsou-o da sala.

"Discordou de mim? Toma esse ban!"


À medida que o filme avança, vamos vendo esses pequenos momentos, esses atritos, que ajudaram a formar Mary Poppins, e talvez até entendamos melhor o produto final.

Também temos vários momentos de flashback da própria PL Travers. Que sim, são romantizados, mas que funcionam justamente por serem memórias de infância romantizadas. E mesmo assim, durante o filme, parece que Travers vai redescobrindo cada vez mais detalhes da sua infância, detalhes que a levaram a escrever o livro em primeiro lugar, e que ela se nega a aceitar algumas verdades.


As cenas no “presente” também são levemente romantizadas, mas questão de adaptação. Walt Disney nunca pegou um avião pra Inglaterra a fim de falar com Travers, ele simplesmente ligou. Mas o momento não teria o mesmo valor se não tivesse o fator olho no olho entre os dois.

Assim como a reação dela ao filme. Pra personagem Travers que foi criada no filme, a reação dela é condizente, mas quem sabe a história sabe como ela reagiu de fato.
A página de trivia do IMDB do filme tem algumas notas sobre essas mudanças, se sentir curiosidade, recomendo que vá ver.


Saving Mr. Banks é um filme fantástico, do ponto narrativo como criativo. Todo o processo do filme é contado do ponto de vista criativo, dos rascunhos, das reescritas, da origem de termos e notas musicais, do debate sobre os personagens, o que é algo interessantíssimo.

Se você ainda não viu Mary Poppins, é uma boa hora de ver, porque é um filme fantástico. Se já viu, hora de rever. Logo após esse filme. É um filme não só sobre artistas fazendo arte, mas sim como eles se sentem em relação a essa arte, a esses personagens, que eles tratam como família. Bem produzido, bem escrito (incluindo referências internas da época, como "man is in the forest"), bem atuado, e que toca em pontos cruciais de uma produção de filme, especificamente um dos melhores filmes que existem.
Definitivamente recomendado, com a força de mil sóis, ambos os filmes.






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