[Mês do Dr. Seuss] Private Snafu


Dando prosseguimento ao Mês do Dr. Seuss, trago aqui algo muito interessante. Talvez não muito especial por si só, mas é interessante. Digo, nem envolve tanto o Dr., mas ainda é uma parte interessantíssima da Segunda Guerra.


Cês lembram que na época da Segunda Guerra os estúdios foram intimados a fazerem curtas de guerra certo? A maioria deles servia pra levantar a moral da população, além de informar sobre algumas coisas sobre a guerra em si(como o Victory Trough Air Power de Disney ).

Entretanto, o tema de hoje não deveria ser visto por civis. Era uma série de curtas feitas exclusivamente pros soldados, o que torna tudo mais interessante.


E claro, Dr. Seuss tava envolvido no meio da produção de Private SNAFU.


Pra início de conversa, SNAFU é uma sigla irônica pra "Situation Normal, All Fouled Up". Claro que "Fouled" é originalmente outra palavrinha com F que você deve conhecer, mas a partir daí dá pra se ter uma noção do público-alvo e o que eles pretendiam fazer com a série.


Os curtas mostravam as aventuras de Snafu, o pior soldado do exército. Ele foi conceituado pra ser o perfeito exemplo do que não fazer, o que funciona muito bem pra curtas instrucionais. Snafu ignora regras de combate, proteção pessoal, etc. Por exemplo, ele não passa repelente nem usa rede de proteção, ficando propenso a pegar malária; em outro momento ele espalha segredos de guerra a episões, etc.

Em alguns momentos aparece o Fada Técnica, que é basicamente um protótipo do Jorgen Von Estranho. Vez ou outra Snafu reclama do serviço e o Fada vai lá e realiza o desejo dele de tentar outro trabalho, pra que o soldado com a voz do Pernalonga veja como os outros trabalhos também são difíceis. Ou então só transformar Snafu no super-herói Snafuman, achando que assim venceria a guerra mais fácil.

Isso até Snafu cometer algumas falhas mínimas, como jogar uma bomba na Casa Branca por acidente.


Mas além de ensinar o que não se deve fazer na guerra, os curtas também tocavam no patriotismo e senso de dever dos soldados. Em The Home Front, Snafu reclama como os soldados passam por situações precárias e difíceis na linha de batalha, enquanto seus parentes estão matando o tempo em segurança. O Fada aparece e mostra que eles estão sendo apoiados pelos seus parentes, onde eles trabalham construindo tanques e navios; e dão suporte plantando alimentos.

E basicamente os curtas são isso. Animações de em média 4 minutos ensinando como se deve se camuflar, limpar armas, se proteger de doenças, e os resultados desastrosos de não tomar essas precauções.


Os curtas ainda aproveitam pra tirar sarro dos inimigos, mostrando-os em designs e situações humilhantes, ou até mesmo empoderados, dependendo da situação. Em Spies, vemos que há espiões por todos os lados e são uma força a ser reconhecida, por exemplo. Outros como No Buddy Atoll e Operation Snafu são mais pra zoar mesmo, focando nos esteriótipos e mostrando-os como palermas incompetentes. Talvez mostrando pros soldados como eles eram ridículos e fáceis de serem derrotados, sei lá.

Eu não sou especialista em Segunda Guerra e são 3h da manhã de uma quinta-feira, o que vocês querem de mim?


Sendo animações exclusivas pro exército, o estúdio não precisava ser tão puritano. São soldados, oras, bota umas mulher bonita e umas piada que envolvam peitos que eles vão se satisfazer por um tempo, bem como ficar atentos às armadilhas envolvendo hormônios que os inimigos poderiam criar pra eles.

Sim... "Booby Traps".
Originalmente, o estúdio Disney que iria produzir os curtas, até que Leon SHILESHINGER ofereceu um terço do que a Casa do Rato propunha, e levou o trabalhor pra Warner Bros. O personagem foi idealizado por Frank Capra (sim, aquele Frank Capra), e foi dirigido por mestres como Chuck Jones, Friz Freleng, Frank Tashlin e Bob Camplett. Não botei o que eles fizeram porque são listas imensas e nada do que eu disser vai fazer jus a eles, então pesquisem vocês mesmos.

Basta saber que eles trabalharam muito com Looney Tunes, alguns curtas de Dr. Seuss, Pantera Cor-De-Rosa, e Preta de Carvão e os Sete Anões.

Como assim? Como vocês não conhecem Preta de Carvão?
...ok, me lembrem de fazer um artigo sobre o Censored Eleven.

Um exemplo onde vemos o amálgama
do cartunesco com o instrucional.
Os desenhos precisavam ser divertidos e didáticos.
Enfim, a contribuição de Seuss pode ser vista em alguns curtas, especialmente os que tem algum tipo de rima. Como os roteiros não são assinados, é difícil saber com exatidão os que ele trabalhou, mas qualquer um familiarizado com seus versos consegue apontar onde Teddy botou seu dedo Springfieldiano.

Springfieldense...? Sei lá.


Então, Snafu tem algum valor pra hoje? Sim e não.


Como os curtas da época, eles ficam antiquados rápido. Tu logo nota as marcas do tempo e as piadas que, embora extremamente bem ritmadas, não são mais tão engraçadas.
Por outro lado, ele tem muita marca do tempo, o que o torna especialmente interessante.
As caricaturas obviamente esteriotipadas, a comédia, os simbolismos, tudo é um estudo interessantíssimo de um ponto de vista totalmente diferente.

Uma coisa é tu pegar, sei lá, Education for Death, que era pra audiência comum, outra é tu pegar animação instrucional especificamente pra soldados. São visões, necessidades, e propósitos diferentes.


E é engraçado como Snafu, mesmo sendo extremamente obscuro, ainda apareceu em um episódio de Animaniacs, e um trecho de um episódio na abertura do episódio I Dated a Robot de Futurama.

Talvez porque todos os curtas estejam em domínio público e podem ser assistidos da página da Wikipedia, né.


E quer uma prova melhor ainda de como Snafu é um excelente estudo de época?

De todos os episódios, apenas 2 tiveram problemas com exibição. Secrets of Caribbean foi terminado, mas provavelmente pelo fim da Guerra, nunca foi exibido (logo depois fizeram um curta sobre um dos irmãos de Snafu, que era marinheiro, mas o projeto não foi pra frente) e o rolo original foi dado ao Exército. E desde então nem um frame apareceu.


Entretanto, um episódio que depois foi solto ao público não chegou a ser exibido na época. Seguindo a lição de Spies e Censored, o episódio Going Home não foi exibido na época, e há várias possíveis razões pra isso.


O curta mostra Snafu voltando pra casa e contando pra todo mundo segredos do front, até que ouve no rádio a informação de que sua legião foi bombardeada, ele deseja que um trem passe por cima do imbecil que vazou as informações, e um trem atravessa a sala, atropelando o soldado.

Um dos motivos mais prováveis é a representação do chamado "home front" (os cidadão que davam apoio aos soldados, como já mencionado). Em Spies, Snafu soltava as informações secretas e espiões captavam; aqui, é subtendido que os cidadãos passaram essa mensagem meio que inconscientemente ao inimigo.


Outro motivo é a idéia de ter uma unidade militar bombardeada, que com certeza iria ferir a moral do Exército, bem como talvez desmotivar os soldados.

Mas o motivo que eu acredito ser mais forte é por mostrar um projeto de bomba muito parecida com a da bomba atômica.



Ou seja, os caras meio que sem querer fizeram algo que poderia ter colocado o resultado da Segunda Guerra em risco.

É! Pois é!


Se a informação da bomba atômica vazou pra algum dos roteiristas, eu não faço idéia e talvez ninguém saiba. O fato é, Private Snafu pode não ter resistido ao teste do tempo, mas com certeza é um fascinante estudo de um pedaço de época. Se for curioso, vale muito a pena dar uma olhada.

Ou se tiver fazendo um trabalho pro colégio, eu aposto como a chance de algum de seus colegas pensarem nesse tema é mínima.

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