[Tio Walt - Parte 3] É o que tem pra hoje, né...



O status quo do estúdio de Walt Disney estava na pindaíba. Greve dos animadores, filmes caros sem muito retorno financeiro, e a Segunda Guerra truando, dificultaram ainda mais o retorno lucrativo pro estúdio, forçando Válter a focar em projetos menores e mais seguros, como Dumbo e Bambi. Nessa época, o presidente Roosevelt começou uma política de boa vizinhança dos EUA com a américa latina, e Valdisney foi chamado pra fazer animações e viagens pelo continente.


E o primeiro projeto que surgiu foi "Saludos, Amigos!" (Alô, Amigos!).





Até hoje, esse é o mais curto longa metragem do estúdio, com 42 minutos de duração. O filme mostra Val e sua equipe no avião e fazendo ilustrações das paisagens e pessoas da américa latina; e então corta pros curtas.


O primeiro segmento é o do Lago Titicaca, com Donald. Além de nos dar informações sobre o local, também vemos Donald tentar manipular uma Lhama com uma flauta, tal qual os nativos. Curta básico de Donald, engraçado.




A seguir, temos Pedro, curta que eu já conhecia das fitas Divirta-se em Inglês com Disney, sobre um avião-criança que é incubido de transportar uma mensagem da Argentina, passando por uma montanha com um rosto assustador. Quando eu era pirralho eu já cansei facilmente do curta, é meio monótono, mesmo com o clímax interessante.




Em seguida, baseado em uma idéia engavetada de um tutorial do Pateta de como ser um cowboy, Pateta nos ensina como ser um verdadeiro gaúcho, como por exemplo, caçar avestruzes, montar num cavalo, e ouvir Luiz Marenco.
É um curta mais engraçado e que mostra uma animação top de linha, típico do estúdio.




E então o grand finale, com meu pedaço favorito, Aquarela do Brasil e Tico Tico no Fubá, onde somos introduzidos a Zé Carioca (ou Joe Carioca, nos EUA) e várias partes da cultura brasileira.

Mas antes, nos é mostrado um pincel criando artes em aquarela de algumas paisagens brasileiras, e as coisas vão mudando de forma; são bananas mas viram tucanos; as flores ganham vida com o pincel e viram bocas; é uma obra-prima, e um atestado de criatividade dos animadores.




Sim, de longe é o trecho mais divertido, não só por ser algo familiar a nós, especificamente, mas por ter personagens carismáticos e conhecidos (assim como o do Pateta) em idéias visuais fantásticas, e que infelizmente acaba cedo demais.



Todo o filme tem a sensação de estar faltando algo, e não é na animação, que é belíssima (como o de costume), mas mais... Na inspiração, eu diria. Embora seja divertido, não é algo que eu ficaria revendo tantas vezes, ao contrário de outros filmes (raios, mesmo outros filmes-pacote). Ainda é bom, interessante, e recomendo a ver.

E ele não passa a idéia de ser só uma propaganda, o que é ótimo. Mesmo as histórias não sendo perfeitas, tem um sentimento de genuinidade, fora que sempre é bom aprender cultura.

Nunca se sabe quando vai se estar num Show do Milhão da vida.


Quando o Pato Donald visitou o Brasil, o que ele bebeu?
A) Refrigerante
B) Limonada
C) Cachaça
D) Lágrimas




Enquanto isso, Válter preparava um desenho sobre a história da aviação, enquanto se apaixonava pelo livro Vitória Pela Força Aérea, de Alexander de Seversky, que pedia mais recursos pra aviação na guerra. Valt chamou Alexander pra apresentar a segunda metade do filme, enquanto a primeira era dedicada à história da aviação.




A versão disponível atualmente (só no KissCartoon, como podem notar) é introduzida por Leonard Maltin, respeitado crítico e historiador de cinema (que aparece nos making-of dos clássicos Disney), explicando todo o contexto histórico do longa. O que me faz lembrar de outro filme que aparecerá em breve, mas divago.




O filme foi feito pra dar um aumento na moral dos soldados e pra força aérea, que inclusive inspirou o design da bomba feita pra atravessar concretos, chamada de Bomba Disney.

A primeira parte do filme é sobre a história da aviação, e é feita no estilo já conhecido do estúdio: cartunesco, mas ainda respeitoso. São segmentos engraçadinhos bem executados, com grandes visuais e boas técnicas de concretização da narrativa. Minha parte favorita, já que a segunda metade é entediante.





A segunda metade é basicamente o autor do livro descrevendo táticas usadas pelo Eixo e comparando com as táticas usadas pelos Aliados, bem como o papel dos EUA nessa história toda. É interessante ver como eles usam a visualização da narração de táticas, mais ou menos como usaram na primeira parte, mas aqui é basicamente uma aula de História, tudo bem explicadinho de uma forma quase didática.




Junto com as cenas realistas descrevendo manobras e ataques aéreos, mostra o talento e habilidade de se adaptar que os animadores tinham.

Infelizmente, é uma coisa que se torna cansativa rápido, e a menos que tu seja um entusiasta do tema (aviação ou guerras) dificilmente vai se manter interessado.

As cenas que quase me fizeram
querer colecionar aeromodelos

Como um todo, é claro que é um filme de propaganda, mas vale a pena mais por motivos históricos e de estudo do período.

Nesse tempo, houveram vários curtas animados de propaganda de guerra, o qual merecem um post só pra eles. Me cobrem.



Voltando aos filmes-pacote, o próximo produzido é um favorito pessoal meu, The Three Caballeros, mais conhecido como "Você Já Foi à Bahia?".




Que, convenhamos, é um nome meio idiota considerando que eles vão pra outros lugares além da Bahia, mas enfim.

O longa basicamente é sobre Donald abrindo os presentes de aniversário, o primeiro deles sendo dois curtas.




O primeiro curta é sobre um pinguim que quer morar num lugar mais tropical e as formas que ele tenta fazer isso, bem como a jornada e o final levemente melancólico. Curto, fofinho, alguns teorizam ser uma das inspirações pra Walter Lantz criar Picolino. Embora seja divertidinho e criativo, o narrador na dublagem original é tão entusiasmado quanto Julius Rock em churrasco vegano, o que pode tornar a experiência entediante.
Pode ser minha nostalgia falando mais alto, mas o narrador brasileiro sabia contar a história com mais emoção.



O segundo curta é um apanhado de gags com pássaros sul-americanos, em especial o Aracuan, que era minha principal imitação de quando eu tinha 8 anos.


E por fim, um curta sobre um gauchinho (com naturalidade variável, dependendo da versão que você assista) que descobre um jumento voador, e juntos vencem uma corrida local. É engraçadinho, ainda mais porque o narrador-personagem interage com ele mesmo quando pirralho.






Tudo muito bem, muito bom. Até que a diversão de fato chega, com Zé Carioca mostrando as belezas da Baía (sic) pra Donald. E então aparece Panchito mostrando um pouco da cultura do México, desde a lenda da criação, até algumas tradições, como Las Posadas e a piñata.





Ambos os segmentos são bastante parecidos, com o primeiro tendo músicas sobre a Bahia e uma sequência em live action com a irmã da Carmen Miranda. O segmento sobre o México tem um cunho mais cultural do que simplesmente ser uma longa sequência musical como o anterior, mas não esquece do foco, que é... Não ter um foco.



E talvez esse seja o problema do filme como um todo: não tem um foco. Embora cada segmento por si só seja divertido e até educativo o suficiente, quando chegamos no segmento final, A Fantasia Surreal de Donald, (que eu só posso imaginar que os roteiristas estavam com bloqueio criativo e tomaram as mesmas substâncias usadas em Dumbo), tu começa a se perguntar que raios tá fazendo assistindo isso.




E claro, a partir do momento que Donald chega na Baía (sic) o filme entra na parte popularmente conhecida como "Teste de Fidelidade com Margarida". Fato inclusive devidamente zoado pelo mestre Don Rosa em sua HQ "O Retorno dos 3 Caballeros".


Então... é. Quando criança eu amava esse filme, eu ainda amo, mas ele de fato não se preservou muito bem. Ainda recomendado por seu valor histórico e criativo.




E claro, também pela incrível mistura de live action com animação, que até hoje segue muito melhor que os filmes do Scooby-Doo.



Depois que o exército finalmente saiu dos estúdios Disney, depois de terem vencido a Segunda Guerra (não antes de cada soldado ganhar uma caneca do Mickey, eu imagino), Válter finalmente tinha algum orçamento que poderia usar em algum filme próprio. Mas enquanto isso não acontecia, Walt lançou o primeiro longa que reunía os restos mortais de Fantasia: Make Mine Music (Música, Maestro!).





Make Mine Music é basicamente um Fantasia mais povão. Ao invés de ter músicas clássicas e eruditas, tem músicas mais populares como jazz; narrativas em verso; e declamações de poesia.



Originalmente, o filme abre com The Martin and the Coys, que foi removido de outras versões americanas por conter "uso de armas usado para fins cômicos não apropriados para crianças". Mas só da versão americana, no Reino Unido a sequência foi mantida porque "pro inferno com esse politicamente correto sem sentido".

Mas se tem um motivo pra esse curta ser removido, é por ser beeeeem abaixo da média dos outros.


Imagem assim porque preguiça
de pegar print do Dailymotion.
O curta narra sobre o confronto de duas famílias sobre um pedaço de terra (baseado em um confronto real e histórico, que acabou por inspirar vários outros) , onde todos os membros morrem no confronto, restando apenas um casal que se apaixona, casa, e começam a brigar.

É tão chato e previsível quanto parece, embora a animação seja até ok.

O segundo curt...

Sim, eu só tinha uma linha pra falar sobre o curta "banido".

...como é?

...

Sim, eu sei, a sinopse tá bem maior que a resenha em si, mas vejam bem:


É chato.


Muito. Muito. Muito... Chato.


Tu pode prever tudo que vai acontecer. Sério. Não vale a pena. Vai por mim.



Enfim, o segundo curta, Blue Bayou, é um que de fato iria ser exibido nas reedições de Fantasia e de fato mostra. É um curta simples, mas de uma letra e imagens belíssimas. É um curta que te dá uma atmosfera muito boa, relaxante, que te deixa apreciar os momentos e sentimentos (como outro mais à frente).




Depois, All the Cats Join In. Um curta diferente, que mais ou menos conta uma história, moldado pelo som do jazz e cultura jovem dos anos 40, que vocês provavelmente lembram de alguns desenhos do Tom e Jerry.

Alguns historiadores já disseram que esse foi uma tentativa da Disney de tentar ser mais moderna, o que sabemos que não é bem como o estúdio trabalha.

...trabalhava.

...ao menos nos filmes principais, quando quer só ganhar aquele lucro garantido a gente sabe que vira o negócio mais datado o possível, especialmente de uns tempos pra cá.





Enfim, o traço obviamente não é o que o estúdio estava acosutmado, influenciado pelo traço de Tex Avery (que vocês devem conhecer de Red Hot Riding Hood). Mas não quer dizer que seja ruim, a animação ainda é aquela animação extremamente fluida e energética que já vimos Disney fazer (como em Tres Caballeros).




E claro, mudanças nas versões seguintes. Eu poderia até reclamar como já reclamei de outras censuras que a Disney já fez, mas essa de fato não influencia tanto no desenrolar do curta, nem é tão imbecil. De fato, é até melhor, considerando que os personagens do desenho tem entre 16 e 18 anos.

Nunca é claramente especificado, mas né, melhor prevenir que levar um processinho.


E por algum motivo, depois desse curta animado cheio de energia com jovens dançando animadamente, temos Without You, uma balada triste e bastante atmosférica.




Assim como Blue Bayou, o curta se foca em um sentimento, e tenta passar isso. E de fato consegue, através de belos visuais e uma música tocante. Sim, o tema de amor perdido pode ser um pouco clichê, mas não é como se fosse proibido de usar. A história do "mentiroso que é desmascarado no final" continua rolando e vocês batem palma, ora pindarolas.




Casey at the Bat provavelmente é minha favorita, um exemplo de um bom timming e narrativa. Aqui vemos a história de uma partida de baseball, onde o jogo acaba empatado, e Casey, o herói da galera vai salvar o dia. A forma que eles constróem o personagem e o final são um bom exemplo de que dá pra trabalhar histórias previsíveis, e eu nem vou falar muito pra não estragar (embora você assistindo saiba o que vai acontecer). A animação é estupenda e criativa, e os versos são divertidos.




Two Silhouettes é basicamente duas silhuetas (oh! Não diga!) dançando balé. Feito por meio de rotoscopia, o curta mostra o potencial dos animadores. Eles não se limitaram a simplesmente mostrar a sombra de duas pessoas dançando, mas dão uma maior variedade de movimentos, apenas mudando a localização dos personagens, e aproveitando os espaços vazios pra deixarem a criatividade fluir de acordo com a música. Bonitinho, mas pessoalmente, não achei muito memorável.




Peter and the Wolf é uma história baseada em uma peça russa, numa época pós-Segunda Guerra onde os EUA e a Rússia ainda eram amiguinhos e trocavam Pokémons nas horas vagas. Peter, um pivete que sonha ser caçador, vai atrás de um lobo que mora nas redondezas, e no caminho encontra um pássaro, um pato e um gato.

O interessante é que, na introdução desse curta, nos é dado um pequeno insight da peça original, e como os instrumentos musicais são usados pra representar cada personagem. E é mostrado de uma forma extremamente didática e criativa.




O curta em si é mediano. Acaba sendo meio monótono, mas é bonitinho de ver e a animação sempre vale a pena assistir, especialmente quando movimentos rápidos são usados.


E sou só eu, ou a hitória de Peter and the Wolf lembra MUITO a história de Momotarou?


After You've Gone é um dos highlights dessa coletânea, é o espírito de Fantasia com uma música mais moderna, mas ao mesmo tempo atemporal. São imagens em certa medida abstratas, mas identificáveis.




Um monte de instrumento musical ganha vida e vai tocando a música, enquanto os animadores fazem o que querem com a animação. Instrumentos viram bolas pro clarinete fazer malabaris, teclas de piano aparecem e do nada mãos, instrumentos correndo em um longo piano, é um caos organizado divertidíssimo de se ver.



Johnny Fedora e Alice Bluebonnet conta a história de amor de dois chapéus.




ANIMAÇÃO RULEZ!




Enfim, é bonitinha, curta, divertida, e é contado de uma maneira que te deixa interessado em saber o final, que mesmo que cê saiba que eles vão ficar juntos, o "como" acontece é interessante, especialmente acompanhado de um belo arranjo vocal das Andrews Sisters.




E, por último The Whale Who Wanted to Sing at the Met, com todos os vocais cantados por um único indivíduo. O favorito de muitos, e com razão. Ouve-se no mar uma voz a cantar ópera, um produtor de ópera acha que uma baleia engoliu um cantor de ópera e vai atrás de salvar o cara.

...o que nos leva a várias perguntas do porque ele iria, quando poderia ficar no canto dele em segurança e mandar profissionais fazer o serviço, mas ok.




Curta bastante divertido, por apresentar uma ópera bem cantada, narrativa criativa, e um final agridoce. Grandes visuais (no pun intended), ópera, baleias. Uma bela forma de terminar essa coletânea.


Eu pessoalmente gostei mais de Make Mine Music que de Fantasia, que, como eu mencionei, alguns momentos me deram sono e se arrastaram demais sem necessidade. Sem tirar o mérito de Fantasia, eu é que sou um velho chato.

...não, pera.


Enfim, Make Mine Music foi uma forma que Válter encontrou de aproveitar idéias de Fantasia, bem como juntar grana. O próximo projeto seria um pioneiro, mas ao mesmo tempo, um dos mais controversos.


Juntem-se a mim no próximo capítulo, onde iniciaremos praticamente uma nova era Disneyana.

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